PERSONALIDADE DA TERRA

Eu não sei o seu nome, e acho que poucas pessoas tenham se interessado em saber.
Ele tem cara de herói e um jeito singular de encarar a vida.
Uma vez o vi feliz, dançando os últimos sucessos de 2008, na porta de uma loja de sapatos, entre os intervalos promocionais. Em uma data festiva, o vi, muitas pessoas também, marchando junto com o TG de nossa cidade.
Certa vez eu lhe ofereci o dinheiro de um almoço, e ele apenas sorriu e disse coisas que eu não entendi. Muitas vezes eu o vi cantarolando os delírios de sua embriagues, mas, o dia que mais me chamou a atenção foi quando o vi de dentro de uma loja de moveis sorrir e acenar para o seu reflexo em um grande espelho emoldurado em sucupira.
Fico a pensar qual reflexo ele teria visto no espelho, qual a graça, se a imagem que vimos, foi a de uma realidade solitária, abandonada a sua triste sorte em trajes indignos.
Qual a sua historia?
Por que ele não é encontrado? Por onde caminham os seus?
Ele está perdido, indo ou vindo?
Eu não sei, e acho que poucas pessoas tenham se interessado em saber. Dele, só se sabe o necessário para/enquanto existir. É apenas mais uma figura jogada as margens sociais de uma cidadezinha do interior. Daquelas, que por falta de sorte, sanidade ou grana, se tornam atração popular. É a desgraça pintada de rosa, mais ou menos como aquele programa mexicano que retrata a historia de um menino pobre, sem identidade e condições de sobreviver, garoto ignorante que mora em um barril, convive e faz parte do dia-a-dia de todos, e ninguém faz nada para mudar sua história.
Ao invés de um barril, pontes ou ruelas, o nosso herói escolheu um canto especial para passar as noites. Se não me engano já faz anos.
Em seu canto, virou matéria de jornal, quando colocaram fogo em seus apetrechos de sobrevivência, coisas simples, um colchonete e uma manta, surrados e sujos, tão pouco, tão tudo.
O que seria riqueza, para um racional? Identidade, família, lar, acesso à saúde, lazer, alimentação, cultura, respeito, religião, privacidade, um salário capaz de suprir todo esse luxo, enfim, tudo o que nos é garantido por lei. Está sacramentado, pesquise no google o que é CF88 e Direitos Sociais.
O mais cômico pra mim, não é o seu desinteresse pelo que interessamos e nem mesmo o nosso desinteresse pelo que te é interessante, os limites de liberdade caminham impares, na certeza de cada um. O mais cômico pra mim é que ele, a sua maneira, ao seu jeito, afronta à realidade literária de uma estrutura que se denomina ordenada, justa e paternalista, morando como um desgraçado rejeitado a porta de um dos mais importantes prédios de nossa cidade. De um lado se tem a porta de acesso a Defensoria Publica do Estado de Minas Gerais e do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), de outro a porta de acesso da Inspetoria de Ensino, juntamente com o acesso do IPSEMG. E dizem que ali naquele prédio a administração local ministra aulas de inglês e espanhol grátis, principalmente a pessoas carentes.

A cara de um líder revolucionário, que carrega em sua cabeça apenas os dreads de Marley, razão de seu apelido.
Seus vícios? Talvez.
Sem as rimas poéticas para criticar os equívocos sociais de um sistema injusto, ele apenas vive ou sobrevive, por ai, mas com “endereço fixo”, as portas da justiça, cega, como todo o resto.
Ele não é um ator mexicano interpretando os dramas de um menino pobre, também não é dono da língua afiada que tentou mudar o mundo com rimas musicais. Ele é apenas mais um, entre milhões de brasileiros que vivem o lado B dessa sociedade.
Deus dos desgraçados descei sobre todos nós. Que a sua justiça e o seu reino sejam justos e acolhedores a todos os miseráveis desta terra. Amém.
Nenhum comentário:
Postar um comentário